18 de janeiro de 2018

dor de garganta


mais uma tentativa de organizar por tamanhos
o maior é o mais importante
o mal menor fica no fim
e os problemas intermédios
no meio

ainda tenho muito que fazer
a garganta dorida deixa adivinhar as palavras que não saem

mas as palavras também são perigosas
e afiadas
às vezes no lado errado

espetam-se sem querer no ombro alheio
no olho alheio
e cegam

quando o impulso de dizer
é maior do que o medo de magoar
desmorona-se logo a torre de tamanhos,
mais um plano por água abaixo

tentar domesticar a própria força
- ainda por cima quando esta só serve para mascarar fraqueza -
é importante
mas faz doer a garganta

gritar também
e não é preciso
agora grito menos

grito mais para dentro e por dentro
causar o mal menor que é o mal que faço a mim própria
ou é isso que se ensina
porque o mais importante é ser altruísta
e pensar no bem maior

pensando melhor
não é que as palavras te magoem
marcam mas não agarras
e eu digo tantas coisas

a culpa é minha que percam a força
as coisas que eu digo
por dizer tantas
e que fiquem tão fracas como eu

17 de janeiro de 2018

ondas

eu já estive aqui , eu lembro-me
mas, não sei se para melhor ou para pior,
agora já não dói tanto

é como as ondas pequeninas 
que vêm depois da grande
como aquela que inunda todo o espaço
quando nunca se sentiu antes

ou como o dêgradê 
que vai do tom mais puro ao tom mais seco
do vermelho vivo ao cinzento morto

mais perto da morte talvez
e tão perto a morte passou aqui
e passa
e com ela a perda de tudo o que ela mata

mas eu sinto

eu ainda sinto

o nó que nunca se desfaz
a culpa que torna sempre
o arrependimento e a angústia
uma raiva irracional que irradia sem aviso

e isso também mata

se eu soubesse aquilo que eu quero mesmo dizer
e se eu descobrisse como dizê-lo
e se eu encontrasse uma forma de estar aqui
talvez eu deixasse de ser uma estranha
de cada vez que penso em mim

mas se calhar ninguém consegue
e é só mistério
o abismo que se abre fundo
de cada vez que olho para dentro

30 de dezembro de 2017

a alma tripartida


a tentar perceber se
- desdobrada a alma -
se encontrariam separadas as vontades
nítidas e desembaraçadas
como fios de novelos finalmente autónomos
e em cada ponta cada parte

aprender
irar-se
desejar

assim se fragmenta a alma
aos olhos do filósofo antigo
categorias que atravessam o tempo e o pó
e que moldam ainda tantas histórias

cabeça
coração
sexo

mal se quebrassem os fios que os unem
iam ser só carne morta e fria

e se calhar a alma também
fria e morta mal se partisse em pedaços
perdidas as pontas que antes ligavam tudo
antes de serem pontas

que fantasia a de esquematizar

pior só pode ser acreditar
que é tão complexa e caótica
esta alminha tonta

4 de dezembro de 2017

emotions

máxima 13º mínima 4º

deslizou-me a corda dos dedos
logo no fim do almoço

(beterraba espalha sumo vivo no prato
ao lado a sopa por comer)

tantas coisas por dizer ainda
e a dúvida aguda debaixo da mesa
nas mãos que remexem o cachecol
nas mãos que desfiam o individual roxo
nas mãos que tapam metade da cara

continuo sem saber se sei o porquê de fazer o que faço
se sei o que estou a fazer de facto
se o que eu faço é aquilo que eu quero

frio congela os ossos na caminhada para o metro
lisboa vazia segunda feira de sol
garganta dorida do ensaio só soube dizer pouco
muito menos do que podia e do que sabia

é aqui que jaz a pérola do que ficou por esclarecer
um cantinho escondido à mão de toda a gente
até à tua se quisesses , se soubesses

na garganta o nó desfeito às vezes refaz-se
e na passagem pelo espelho a vergonha volta
mas depois passa
e lembro
que é preciso sair daqui
é preciso abrir a janela
é preciso tremer de frio
às vezes

nem é sofrer , para quem tem o luxo de o poder evitar
é só sentir com mais força que a vida chama
que nada pára

que ainda estou aqui
mesmo quando te vais embora

2 de dezembro de 2017