2 de abril de 2018

o futuro

achei que , quando chegasse , 
eu ia descobrir qualquer coisa
afinal é igual a sempre
e tudo é diferente de como se imagina

pensei que podia chegar o dia em que começava de vez
mas ando a começar desde que existo
e é mais fácil do que parece
perder tempo que é tão valioso
esperar que venham à tona as ideias

é assim que acontece
quando fico à espera
tudo a acontecer sem mim
ou , aliás , através de mim
e eu túnel de passagem
um vazio que me engole inteira
um dia , outro dia

do passado é que eu duvido
já que o transformo à medida que avanço
mas o que aí vem é mais certo do que tudo o que tem vindo
já que de lá nada me afasta 
e tudo de lá me aproxima




30 de março de 2018

saiu !

ou subiu

\

o sol tinha voltado mas era tanga
uma vez choveu muito nos meus anos
mas o meu anjo da guarda costuma trazer solinho

/

onde isto vai parar eu não sei
já não tenho idade para não saber tantas coisas

6 de março de 2018

chuva

uma declaração de amor era tudo o que eu queria
mas isso é demais
e tu nem sabes amar

2 de março de 2018

o mar que engolia tudo

deixo-me afundar
para ver quão fundo consigo chegar
e ainda que eu tente
há sempre um muro que não sou capaz de furar
vou contra ele , é só deixar-me cair

água e mais água
o mar que rebenta para cima da linha do comboio
o vento que rouba o ar em remoinhos
salpicos salgados

falo muito sem saber
exagero
olho para o mar e só de não me caber nos olhos
sinto logo que quero morrer

quando era pequena tinha o sonho da inundação
o sonho de um dia poder nadar dentro de casa
dentro do meu quarto

agora que finalmente vejo quem eu era
é como se não fosse eu
é como se fosse outra que um dia viria a ser outra que não eu
como se ainda fosse possível ser outro o caminho para a frente
e não este que veio desaguar aqui

porque agora estou aqui e sou cada vez mais pequena
e o mar cada vez maior
e um medo do fundo tão grande 
que nem quando quero lá chegar
consigo



18 de janeiro de 2018

dor de garganta


mais uma tentativa de organizar por tamanhos
o maior é o mais importante
o mal menor fica no fim
e os problemas intermédios
no meio

ainda tenho muito que fazer
a garganta dorida deixa adivinhar as palavras que não saem

mas as palavras também são perigosas
e afiadas
às vezes no lado errado

espetam-se sem querer no ombro alheio
no olho alheio
e cegam

quando o impulso de dizer
é maior do que o medo de magoar
desmorona-se logo a torre de tamanhos,
mais um plano por água abaixo

tentar domesticar a própria força
- ainda por cima quando esta só serve para mascarar fraqueza -
é importante
mas faz doer a garganta

gritar também
e não é preciso
agora grito menos

grito mais para dentro e por dentro
causar o mal menor que é o mal que faço a mim própria
ou é isso que se ensina
porque o mais importante é ser altruísta
e pensar no bem maior

pensando melhor
não é que as palavras te magoem
marcam mas não agarras
e eu digo tantas coisas

a culpa é minha que percam a força
as coisas que eu digo
por dizer tantas
e que fiquem tão fracas como eu

17 de janeiro de 2018

ondas

eu já estive aqui , eu lembro-me
mas, não sei se para melhor ou para pior,
agora já não dói tanto

é como as ondas pequeninas 
que vêm depois da grande
como aquela que inunda todo o espaço
quando nunca se sentiu antes

ou como o dêgradê 
que vai do tom mais puro ao tom mais seco
do vermelho vivo ao cinzento morto

mais perto da morte talvez
e tão perto a morte passou aqui
e passa
e com ela a perda de tudo o que ela mata

mas eu sinto

eu ainda sinto

o nó que nunca se desfaz
a culpa que torna sempre
o arrependimento e a angústia
uma raiva irracional que irradia sem aviso

e isso também mata

se eu soubesse aquilo que eu quero mesmo dizer
e se eu descobrisse como dizê-lo
e se eu encontrasse uma forma de estar aqui
talvez eu deixasse de ser uma estranha
de cada vez que penso em mim

mas se calhar ninguém consegue
e é só mistério
o abismo que se abre fundo
de cada vez que olho para dentro